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23/06/2007
19:40
MUDANÇA DE ENDEREÇO
OLÁ, PESSOAL, ESTAMOS EM NOVO ENDEREÇO:
www.cidaugusto.com.br
Cid Augusto | comentários(3
)
12/05/2007
14:46
A VERTIGEM
A vertigem é filha legítima do sono, a gente fecha os olhos e cai sem saber de onde nem para onde, simplesmente cai na boca do abismo, de tonto, e se acorda no meio da visagem, de susto, mas logo se apazigua, fortalecido por constatar que o tombo não passa de fantasia, de uma armadilha fantástica engendrada no subconsciente, instância psíquica onde habitam todos os medos, inclusive os desconhecidos.
Inda agora, quando revisitava imagens da casa antiga, tropecei na tampa da cisterna. Dois ou três segundos de mergulho profundo, caindo, caindo. Dois ou três segundos podem parecer eternos. Despertei suado, ofegante, porém vivo, intocado, sem arranhões, convencido de que velhas feridas não sangram por vontade alheia. Só você, com a chave dos seus segredos, é capaz de invocar os próprios fantasmas.
Passei as mãos nas pernas e na boca, tudo o.k., sem os problemas da idade daquelas cenas, sem a alergia que me esfolava dos joelhos aos tornozelos, sem o aspecto banguela deixado pela queda que me arrancou vários dentes, sem a caixa de tranqüilizante na mesa de cabeceira, sem a companhia do monstro dos velhos pesadelos, sempre o mesmo monstro de rosto amarelado e capa preta de tecido brilhoso.
Mato-o em diversas batalhas mudas, noutras morro de medo, mas sempre acordo vivinho da Silva. O fantasma também escapa. Na luz, ele some dentro de mim sem deixar pistas. Aprendemos a conviver, a respeitar nossas igualdades, a dividir vitórias e derrotas, na vida falsa, na morte que não se consuma, eu e o meu monstro, unidos nos segredos da loucura, nos tantos mistérios que não se explicam.
Na última vertigem, o monstro estava ali, quieto. Não abriu a boca para dizer palavra nem fez gesto de ataque. Os olhos castanhos dele gritaram nos meus olhos castanhos, “Sou eu o seu medo mais antigo!”, ao que respondi sem meios-termos, “E eu, o seu!”. Foi nessa hora que despenquei na cisterna, afundei no espaço por dois ou três segundos e acordei sentindo-me o único responsável pelos meus medos.
Cid Augusto | comentários(16
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05/05/2007
14:29
NÓS MORREMOS
"Nascemos de um só modo,
de muitos morremos".
SÊNECA
Morremos. Não sei exatamente quando nem como tudo aconteceu. Tenho certeza apenas de que perecemos consumidos a partir dos ossos por um mal secreto e traiçoeiro. Houve sinais, mas não nos importamos com os alertas dados aos nossos corpos e almas. Calamo-nos e no silêncio onde as defesas humanas se enfraquecem, longe de médicos e curandeiros, a moléstia passou à fase terminal e a terceira parca, Átropos, irmã de Cloto e Láquesis, cortou o fio de nossas vidas.
Estou no inferno e aqui, diferentemente do que dizem, faz um frio dos diabos, aquele frio úmido que ataca as articulações, favorecendo a manifestação da poliartrite congênita. No entanto, a dor nos punhos, nos cotovelos e nos joelhos nem se compara ao estardalhaço do tinhoso em meu juízo. O juízo dói e pesa muito mais do que juntas e tendões apodrecidos. É como diz aquela alma atormentada em Dante: "Não há mágoa mais atroz do que na desgraça recordar as alegrias".
Felizmente há livros, milhares deles, coletâneas e coletâneas de conhecimento proibido amontoadas desde o pecado original em prateleiras pálidas e sujas. Os tratados sobre ética encabeçam a lista dos best-sellers. A música é legal. No instante, criaturas do pecado e do fogo escutam "O ciúme", de Caetano na voz de Caetano: "...Tanta gente canta, tanta gente cala,/ tantas almas esticadas no curtume./ Sobre toda estrada, sobre toda sala,/ paira, monstruosa, a sombra do ciúme".
Desconheço o paradeiro da outra parte. Disseram-me criaturas do Limbo que a alma-gêmea dos anos terrenos habita o Paraíso onde moram santos, anjos, arcanjos, querubins e outras invenções celestes. Se estiver realmente por lá, que passe bem. O amor deve a ela a compensação da felicidade eterna. Da última vez em que nos vimos, encontrávamos no leito de morte, cada qual do seu lado consumindo-se na falsidade dos diagnósticos, sem força para as palavras de salvação.
Palavras são navalhas se as forjarmos com o aço da desconfiança na fornalha da mentira. Navalhas cortam dilacerando a carne. E matam. Nós morremos, mesmo sabendo que antídoto para navalha é palavra. Devíamos tê-lo ingerido nos primeiros sinais, mas negligenciamos as disposições orgânicas. A ex-amada ganhou paz eterna, amém! Eu prossigo no Vale das Sombras, partindo corações na madrugada, embriagando-me do chumbo vulgar que servem nas filiais do inferno.
Cid Augusto | comentários(8
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14/04/2007
11:30
TAMBÉM JÁ AMEI UMA OLIVETTY
Em entrevista a Gerson de Castro, na TV Câmara, da Câmara de Vereadores de Natal, o jornalista e escritor João Batista Machado disse que, apesar de possuir dois computadores de ponta, sendo um convencional e um portátil, não abre mão de escrever os livros dele na velha Olivetty que o acompanha desde a primeira obra.
Essa declaração de amor e fidelidade bateu-me forte na consciência. Também já amei uma Olivetty, mas, ao contrário de Machadinho, eu a troquei por um computador que, aliás, acabou trocado por outro, outro e mais outro, até chegar a este confortável modelo que dentro de alguns meses terá o mesmo fim dos anteriores.
Apesar de haver nascido às vésperas do jornalismo virtual, tive o privilégio de manejar linotipo, de mexer com tipos móveis e de imprimir textos numa Marinoni, coisas que a maioria dos jornalistas de minha geração conheceu apenas de nome, sem ter o gosto de experimentar, de participar dessas transformações.
Quando decidi escrever para o O Mossoroense, puseram-me diante de uma Olivetty tão velha que a turma dizia ser herança de Jeremias da Rocha, fundador do jornal. Apaixonei-me por ela e tinha ciúme a ponto de trancá-la com um cadeado, como se fosse um cinto de castidade para que ninguém tocasse suas partes íntimas.
Fomos muito felizes até que um dia doutor Laíre Rosado, meu pai e chefe, mandou instalar um microcomputador XT não sei lá das quantas na redação. Creio que tenha sido esse o primeiro, depois dos terminais Forma Composer utilizados pelos digitadores, a fazer parte da rotina dos jornais norte-rio-grandenses.
A reação inicial foi de repulsa ao bicho de monitor esverdeado. "Jamais deixaria minha velha Olivetty por aquele trambelho eletrônico, apesar de seus olhos verdes", dizia eu nas primeiras semanas até que um dia, com a desculpa de contribuir com a turma da digitação, comecei a digitar no XT as matérias produzidas à máquina.
Não demorou muito até eu me tornar escravo da informática e a não me incomodar mais se alguém metia as mãos cheias de dedos no corpo da ex-companheira. Isso mesmo, ex-companheira, pois alguns meses depois, desliguei-me completamente dela, lançando-me sem pudores aos braços da tecnologia.
Envergonhado, confesso nem ao menos saber o paradeiro da Olivetty. Prometo, no entanto, que vou procurá-la no depósito do jornal e, caso a encontre, colocá-la-ei em lugar de destaque na pequena biblioteca, bem perto de onde escrevo, para que sejamos bons amigos, já que o progresso nos impede de sermos novamente amantes. Cid Augusto | comentários(7
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07/04/2007
17:41
NÃO SE PREOCUPE COM OS PAIS
Em carta à filha, o romancista e teatrólogo americano Scott Fitzgerald, autor de O Grande Gatsby, transcreve William Shakespeare, "Lírios apodrecidos têm cheiro pior do que o das ervas daninhas", para ilustrar um conselho, o de que é preciso ser responsável acima das alegrias e das tristezas, porque as pessoas são recompensadas pelas virtudes e castigadas em dobro por negligenciar as obrigações.
Mais à frente, ele escreve três listas, a das coisas que merecem atenção, a das que não merecem atenção e a das coisas para pensar. As coisas que merecem atenção resumem-se a coragem, higiene, eficiência e equitação. As coisas para pensar - se me permitem mexer na seqüência - convidam a refletir acerca dos objetivos da vida e sobre a capacidade de relacionamento com o semelhante.
A maior das listas, deixei por último, é a segunda, com dezesseis itens, entre os quais "não ligue para a opinião dos outros, não se preocupe com o passado, não se preocupe com o futuro, não se preocupe em triunfar, não ligue para os mosquitos, não se preocupe com as decepções, não se preocupe com os prazeres, não se preocupe com as satisfações e não se preocupe com os pais".
Desconheço o sentido real desta última frase, mas, pelo contexto, imagino que Fitzgerald, expoente da "geração perdida" de Ernest Hemingway e John dos Passos, quis dizer à filha dele o mesmo que eu e meus irmãos sempre ouvimos de nossos dedicados pais, inclusive agora, depois de alcançarmos a idade adulta, algo mais ou menos assim: "Sejam felizes que nós também o seremos".
Compreendo bem o que significa para um pai ou para uma mãe a felicidade dos filhos. Quando alcanço qualquer vitória na vida, por menor que ela seja, o brilho nos olhos dos meus pais é, sem dúvida, o mesmo brilho dos meus olhos diante dos triunfos e das alegrias dos meus filhos, o brilho do amor sem limites, do amor incondicional que se renova e se fortalece de geração em geração.
Cid Augusto | comentários(5
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31/03/2007
19:18
A "LEI SECA"
O Legislativo mossoroense transformou-se na versão institucional da velhinha do A Praça é Nossa. Seus integrantes perderam a condição de escutar a voz do povo e, mesmo quando captam ruídos de palavras amplificadas pela mídia, entendem as coisas de maneira distorcida. O resultado são respostas equivocadas que abalam nossas forças em plena festa dos 80 anos da resistência ao bando de Lampião.
A última ofensa à inteligência dos conterrâneos de Dorian Jorge Freire e Vingt-un Rosado, depois da chuva de requerimentos inócuos e da saraivada de ataques a veículos de comunicação na tentativa de abafar denúncias do Ministério Público, é um projeto de lei do vereador Osnildo Morais, o Sargento Osnildo (PSL). Imagine, o edil sugere fechar os bares à meia-noite para diminuir a violência na cidade.
Ocorrência lamentável, pior ainda por ser da autoria de um policial experiente, conhecedor das reais dificuldades de seus colegas militares na árdua tarefa de combater o crime. Osnildo sabe - do contrário deveria saber - não existirem relações entre os elevados índices locais de criminalidade e a raquítica vida noturna de Mossoró que, mesmo sem grandes coisas, garante o sustento de centenas de famílias.
Do ponto de vista político-partidário, o autor enfiou-se numa aeronave camicase com vocação a fogo amigo. Displicência da assessoria, claro, que se esqueceu de alertá-lo: o modelo semi-árido da "Lei Seca" coloca-o em rota de choque com a prefeita, algo inédito na Câmara da Obediência, onde o membro de oposição e o autoproclamado independente são mais servis que o mais roxo governista assumido.
A proposta é contrária ao desenvolvimento turístico e, se aprovada, ferirá de morte o calendário de eventos da prefeitura, cujos carros-chefes são Auto da Liberdade e Mossoró Cidade Junina, incluindo-se os shows secundários da Cidadela montada ao lado da São Vicente, palco do Chuva de Bala. Até as barracas da tradicional festa de Santa Luzia, garantia de renda extra à paróquia, seriam inviabilizadas.
Considerando-se o movimento sazonal, a perspectiva amplia-se ameaçando milhares de postos de trabalho, fixos e temporários. Mas nem todos classificam a coisa de ruim. Com a "Lei Seca", afirma certo garçom, "ninguém ouvirá sargento Osnildo 'cantando' Moranguinho do Nordeste depois da meia-noite". Calma, amigo, mestre Tom Jobim assegura que no peito dos desafinados também bate um coração.
Cid Augusto | comentários(10
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24/03/2007
21:16
DE BODE
Estou de bode. Caio Fernando Abreu, que era gênio, vez por outra acordava com um dragão. Eu, deselegante, tapado, sem sofisticarias, acordo de bode, chuto cadeira, reclamo do café, queixo-me da mulher e dos meninos, "Droga de barulho! Droga disso! Droga daquilo! Droga!". Nem metade do mês, liso de passar verniz, as contas ainda chegam. Volto a reclamar, e aviso logo: reclamarei no texto inteiro.
O computador está lento, o juízo apressado, "Que juízo, criatura?", ninguém pára de falar. Belo dia para escrever poemas, poemas de amor e ódio, filigranas de amoródio. É assim mesmo, adoro deformar palavras, porque as detesto, pelo menos agora, na era do bode. Se bem que, nesse caso, a fusão desconstrutiva se sustenta. Afinal, do amor há grandes chances de frutificar o ódio, o ódio legítimo e sincero.
O telefone toca, sinto que deve ser chatice das brabas. Do lado de lá, confirmando a teoria: "Aquele ex-amigo disse horrores de nós". Do lado de cá: "Ótimo!". Do lado de lá, espantado: "Não vai dizer nada?". Do lado de cá: "Nada!". Do lado de lá, insistindo: "Você o ajudou tanto!". Do lado de cá: "Sim!". Do lado de lá: "Você tem sangue de barata, doutor?". Do lado de cá: "Talvez?". Mistério, a linha cai.
Divórcio!, penso com a cabeça-do-mindinho-esquerdo-atacado-pela-artrite, preciso divorciar-me da mulher, do telefone, do jornal, divórcio amplo, geral e irrestrito, divórcio principalmente de mim mesmo. Devo seguir o conselho daquele sujeito chato, idiota, arrepiado, de olheiras magnéticas, pretas, da testa franzida, grave, que me aparece de repente, feito alma errante, o mago louco do espelho embaçado.
Tudo isso porque estou de bode, porque o mundo sofre de TPM - Tensão Pós-Moderna, porque amanheceu e meus olhos ardem, porque Antônio Maria inventou aquele troço de "Ninguém me ama, ninguém me quer,/ ninguém me chama de meu amor", porque, sei lá por quê! Quem me dera a companhia do dragão, mas São Jorge o emprestou a quem pediu primeiro. Ogunhê! Viva Deus e morra o diabo!
Cid Augusto | comentários(19
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17/03/2007
14:10
A VINGANÇA DA HIENA
Li faz muitos anos, tantos que o título e os detalhes da fábula sumiram nos confins da memória. A parte central do enredo, no entanto, permanece clara o bastante para ser tomada como metáfora do comportamento de certos vereadores e assessores da Câmara Municipal de Mossoró em relação ao Ministério Público e a "setores da imprensa", como dizem os caríssimos edis e seus nada baratos asseclas.
A estória contida num livro furtado de minha humilde biblioteca narra a vingança da hiena cujo filhote fora devorado pelo tigre. Embora todas as testemunhas dissessem, e o próprio tigre assumisse a autoria do crime, a hiena, animal que segundo os índios transporta espíritos maus, resolveu ir à forra assassinando a zebra, justamente quem, de coração partido, deu a triste notícia à mãe da pequena vítima.
A senhora hiena - saliente-se para melhor compreensão - foi o grande culpado pelo ocorrido. Ela negligenciou os perigos da selva deixando a cria indefesa, à mercê de outros predadores, enquanto dividia com vermes os restos da carne podre do cadáver do búfalo abatido por leopardos. O tigre, respeitável senhor de bengala, aproveitando a oportunidade, deu andamento aos rituais da cadeia alimentar.
"A zebra é culpada. Quero vingança!", exclamava a hiena. "Não foi a zebra, foi o tigre, todo mundo viu. A coitadinha apenas deu a notícia", retrucavam interlocutores. Mas a hiena, sabendo-se incapaz de atingir o poderoso felino, repetia alto tentando convencer aos outros e a si: "A culpa é da zebra, a culpa é da zebra, a culpa é da zebra..." até que, convencida da própria mentira, esfolou o bicho inocente.
Relaciono a covardia promovida pela hiena ao comportamento vergonhoso de indivíduos da nossa Câmara de Vereadores que tentam ludibriar a opinião pública atribuindo a "setores da imprensa" críticas abertas que lhes são feitas pelo Ministério Público. Na visão da promotoria, e na minha também, o Poder Legislativo não vem cumprindo o papel de proteger os interesses do povo das garras das feras.
O MP questiona o fato de há anos as propostas orçamentárias do Executivo serem aprovadas no escuro, sem debates ou emendas, e suspeita desde ilegalidades contábeis ao crescimento da folha de pessoal da Câmara. Os "setores da imprensa" se limitam a noticiar esses fatos dando voz tanto aos promotores quanto aos investigados. E continuarão a fazê-lo, mesmo diante dos uivos ameaçadores da hiena.
Cid Augusto | comentários(7
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10/03/2007
12:30
FOTOGRAFIA
A fotografia está reproduzida em papel fosco. Boa escolha, a matéria-prima valoriza o brilho dos olhos castanhos da antiga namorada. O vestido negro, decotado, cai bem na palidez do corpo jovem, aveludado, e contrasta com o verde-musgo do cenário. O rosto, meio de banda, meio sombra, meio luz, extravasa mistério e sedução. Nariz, boca, pescoço, colo, elementos harmônicos, traços de gênio.
Se eu não a conhecesse de longas eras, diria, pela foto, que as santas existem além das redomas, diria que uma deusa, insatisfeita com a vida monótona dos altares, descera à Terra e se fizera carne para abençoar os homens carentes, derramando sobre eles beleza, ternura, quiçá ungindo-os com aqueles beijos celestes que às vezes imagino haver encontrado, mas que ainda espero no rastro das estrelas.
Felizmente conheço os artifícios da besta e, no caso dela, a fotografia não me leva a um falso juízo. Está linda, com certeza. Afirmo, porém, que o feio habita o avesso do retrato, o lado que ninguém enxerga e que as técnicas do ofício escondem. É uma safada, essa doce menina, e se fosse apenas safada, maravilha! Muitos homens adoram mulheres safadas. Ocorre que a moça é o poço das ilusões.
Por isso, digo aos amigos que desconfiem das fotografias, pois elas escondem ou ampliam certas características conforme lhes convêm e aos seus criadores e criaturas, são umas mentirosas. É o ângulo, sempre o ângulo que valoriza ou avacalha a imagem. Desculpem-me pela generalização, nem todas são ruins, acontece que já fui seduzido por fotos levianas, tanto em cores quanto em preto-e-branco.
Tenho motivos mil para agir dessa maneira, duvidando dos retratos e da beleza das bruxas. Sou das vítimas e, conhecendo determinados segredos do mundo das imagens, tento desmitificar fantasmas que nascem das lentes e dos flashes. Diziam os índios - quando índio era índio - que as câmeras roubam o espírito do homem. Não, elas não roubam coisa nenhuma, mas também não reproduzem a realidade.
Se revelassem a aura, se tivessem a decência, a coragem de mostrar o que se esconde atrás dos rostos e dos corpos, atrás das aparências, atrás das paisagens, se trouxessem à tona o conteúdo de cada elemento, as fotos prestariam grandes serviços à humanidade, desmascarando certas figurinhas simpáticas que freqüentam os jornais, as revistas ou simplesmente este pedaço de papel fosco do meu arquivo.
Cid Augusto | comentários(4
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03/03/2007
14:15
PARA NATACHA
Pretendia escrever sobre a moça de azul, aquela de azul na roupa, de azul nos olhos, de azul na cuca. O problema é que toda moça de azul tem namorado roxo, de ciúme, detalhe lastimável, mas convincente o bastante para mudar o rumo da prosa. Natacha, pelo menos, não deve me causar problemas, digo "não deve" porque, sinceramente, não a conheço, nem sei se ela existe e, se existe, se é nova, velha, alta, magra, feia, bonita.
Talvez esteja na casa dos "inta", daí para frente, porque a indicação "P/ Natacha" escrita em grafite, com uma letra alta, magra, quase gótica, encontra-se abaixo de "Ao Leitor", título do primeiro poema de As Flores do Mal, obra-prima de Baudelaire, e a edição a que me refiro é de 1985. Comprei-a faz seis anos, no Sebo Vermelho, por quinze reais ou "Quinze contos", como diz Abimael Silva, proprietário do estabelecimento.
Para os que apreciam a análise do comportamento humano, construindo imagens acerca das pessoas, a partir de sinais aparentemente sem importância, os livros usados têm significado especial, porque neles estão as marcas, conscientes e inconscientes, feitas pelos antigos leitores. São grifos, anotações, rabiscos, dobraduras e até aquele aspecto amarelado que certas páginas adquirem, por serem mais freqüentadas do que outras.
Assim encontrei Natacha. Além da dedicatória a ela, há uma assinatura ilegível, que se repete na folha de autógrafo e no sumário, o desenho de um bichinho esquisito, na página 449, e o destaque ao nome de Creso, rei da Lídia, cuja riqueza inspirou a frase "Tão rico quanto Creso". O último proprietário também destaca os poemas "Epígrafe para um livro condenado", na página 457, e "A Eugène Fromentin", na página 565.
Não consigo definir o que se pretendia no tocante a Natacha, compará-la com a mensagem ou apenas avisá-la de que o pecado vicia, de que "... adoráveis remorsos sempre nos saciam", de que "Impomos alto preço à infâmia confessada", e de que "É o diabo que nos move e até nos manuseia!/ Em tudo o que repugna uma jóia encontramos;/ Dia após dia, para o Inferno caminhamos,/ Sem medo algum, dentro da treva que nauseia".
Há quem não se sinta provocado por coisas dessa natureza, mas eu, Escóssia da gema, trago a inquietação e a curiosidade destacadas na herança genética. Quem será Natacha? Ainda vive? Mora onde? Faz o quê? É flor do bem ou do mal? Veste-se de azul ou prefere verde, vermelho? Se alguém souber do paradeiro dela, da Natacha cuja memória habita o meu exemplar do livro de Baudelaire, por favor, avise-me com urgência.
Cid Augusto | comentários(2
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