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23/06/2007
19:40
MUDANÇA DE ENDEREÇO
OLÁ, PESSOAL, ESTAMOS EM NOVO ENDEREÇO:
www.cidaugusto.com.br
Cid Augusto | comentários(39
)
12/05/2007
14:46
A VERTIGEM
A vertigem é filha legítima do sono, a gente fecha os olhos e cai sem saber de onde nem para onde, simplesmente cai na boca do abismo, de tonto, e se acorda no meio da visagem, de susto, mas logo se apazigua, fortalecido por constatar que o tombo não passa de fantasia, de uma armadilha fantástica engendrada no subconsciente, instância psíquica onde habitam todos os medos, inclusive os desconhecidos.
Inda agora, quando revisitava imagens da casa antiga, tropecei na tampa da cisterna. Dois ou três segundos de mergulho profundo, caindo, caindo. Dois ou três segundos podem parecer eternos. Despertei suado, ofegante, porém vivo, intocado, sem arranhões, convencido de que velhas feridas não sangram por vontade alheia. Só você, com a chave dos seus segredos, é capaz de invocar os próprios fantasmas.
Passei as mãos nas pernas e na boca, tudo o.k., sem os problemas da idade daquelas cenas, sem a alergia que me esfolava dos joelhos aos tornozelos, sem o aspecto banguela deixado pela queda que me arrancou vários dentes, sem a caixa de tranqüilizante na mesa de cabeceira, sem a companhia do monstro dos velhos pesadelos, sempre o mesmo monstro de rosto amarelado e capa preta de tecido brilhoso.
Mato-o em diversas batalhas mudas, noutras morro de medo, mas sempre acordo vivinho da Silva. O fantasma também escapa. Na luz, ele some dentro de mim sem deixar pistas. Aprendemos a conviver, a respeitar nossas igualdades, a dividir vitórias e derrotas, na vida falsa, na morte que não se consuma, eu e o meu monstro, unidos nos segredos da loucura, nos tantos mistérios que não se explicam.
Na última vertigem, o monstro estava ali, quieto. Não abriu a boca para dizer palavra nem fez gesto de ataque. Os olhos castanhos dele gritaram nos meus olhos castanhos, “Sou eu o seu medo mais antigo!”, ao que respondi sem meios-termos, “E eu, o seu!”. Foi nessa hora que despenquei na cisterna, afundei no espaço por dois ou três segundos e acordei sentindo-me o único responsável pelos meus medos.
Cid Augusto | comentários(17
)
05/05/2007
14:29
NÓS MORREMOS
"Nascemos de um só modo,
de muitos morremos".
SÊNECA
Morremos. Não sei exatamente quando nem como tudo aconteceu. Tenho certeza apenas de que perecemos consumidos a partir dos ossos por um mal secreto e traiçoeiro. Houve sinais, mas não nos importamos com os alertas dados aos nossos corpos e almas. Calamo-nos e no silêncio onde as defesas humanas se enfraquecem, longe de médicos e curandeiros, a moléstia passou à fase terminal e a terceira parca, Átropos, irmã de Cloto e Láquesis, cortou o fio de nossas vidas.
Estou no inferno e aqui, diferentemente do que dizem, faz um frio dos diabos, aquele frio úmido que ataca as articulações, favorecendo a manifestação da poliartrite congênita. No entanto, a dor nos punhos, nos cotovelos e nos joelhos nem se compara ao estardalhaço do tinhoso em meu juízo. O juízo dói e pesa muito mais do que juntas e tendões apodrecidos. É como diz aquela alma atormentada em Dante: "Não há mágoa mais atroz do que na desgraça recordar as alegrias".
Felizmente há livros, milhares deles, coletâneas e coletâneas de conhecimento proibido amontoadas desde o pecado original em prateleiras pálidas e sujas. Os tratados sobre ética encabeçam a lista dos best-sellers. A música é legal. No instante, criaturas do pecado e do fogo escutam "O ciúme", de Caetano na voz de Caetano: "...Tanta gente canta, tanta gente cala,/ tantas almas esticadas no curtume./ Sobre toda estrada, sobre toda sala,/ paira, monstruosa, a sombra do ciúme".
Desconheço o paradeiro da outra parte. Disseram-me criaturas do Limbo que a alma-gêmea dos anos terrenos habita o Paraíso onde moram santos, anjos, arcanjos, querubins e outras invenções celestes. Se estiver realmente por lá, que passe bem. O amor deve a ela a compensação da felicidade eterna. Da última vez em que nos vimos, encontrávamos no leito de morte, cada qual do seu lado consumindo-se na falsidade dos diagnósticos, sem força para as palavras de salvação.
Palavras são navalhas se as forjarmos com o aço da desconfiança na fornalha da mentira. Navalhas cortam dilacerando a carne. E matam. Nós morremos, mesmo sabendo que antídoto para navalha é palavra. Devíamos tê-lo ingerido nos primeiros sinais, mas negligenciamos as disposições orgânicas. A ex-amada ganhou paz eterna, amém! Eu prossigo no Vale das Sombras, partindo corações na madrugada, embriagando-me do chumbo vulgar que servem nas filiais do inferno.
Cid Augusto | comentários(9
)
14/04/2007
11:30
TAMBÉM JÁ AMEI UMA OLIVETTY
Em entrevista a Gerson de Castro, na TV Câmara, da Câmara de Vereadores de Natal, o jornalista e escritor João Batista Machado disse que, apesar de possuir dois computadores de ponta, sendo um convencional e um portátil, não abre mão de escrever os livros dele na velha Olivetty que o acompanha desde a primeira obra.
Essa declaração de amor e fidelidade bateu-me forte na consciência. Também já amei uma Olivetty, mas, ao contrário de Machadinho, eu a troquei por um computador que, aliás, acabou trocado por outro, outro e mais outro, até chegar a este confortável modelo que dentro de alguns meses terá o mesmo fim dos anteriores.
Apesar de haver nascido às vésperas do jornalismo virtual, tive o privilégio de manejar linotipo, de mexer com tipos móveis e de imprimir textos numa Marinoni, coisas que a maioria dos jornalistas de minha geração conheceu apenas de nome, sem ter o gosto de experimentar, de participar dessas transformações.
Quando decidi escrever para o O Mossoroense, puseram-me diante de uma Olivetty tão velha que a turma dizia ser herança de Jeremias da Rocha, fundador do jornal. Apaixonei-me por ela e tinha ciúme a ponto de trancá-la com um cadeado, como se fosse um cinto de castidade para que ninguém tocasse suas partes íntimas.
Fomos muito felizes até que um dia doutor Laíre Rosado, meu pai e chefe, mandou instalar um microcomputador XT não sei lá das quantas na redação. Creio que tenha sido esse o primeiro, depois dos terminais Forma Composer utilizados pelos digitadores, a fazer parte da rotina dos jornais norte-rio-grandenses.
A reação inicial foi de repulsa ao bicho de monitor esverdeado. "Jamais deixaria minha velha Olivetty por aquele trambelho eletrônico, apesar de seus olhos verdes", dizia eu nas primeiras semanas até que um dia, com a desculpa de contribuir com a turma da digitação, comecei a digitar no XT as matérias produzidas à máquina.
Não demorou muito até eu me tornar escravo da informática e a não me incomodar mais se alguém metia as mãos cheias de dedos no corpo da ex-companheira. Isso mesmo, ex-companheira, pois alguns meses depois, desliguei-me completamente dela, lançando-me sem pudores aos braços da tecnologia.
Envergonhado, confesso nem ao menos saber o paradeiro da Olivetty. Prometo, no entanto, que vou procurá-la no depósito do jornal e, caso a encontre, colocá-la-ei em lugar de destaque na pequena biblioteca, bem perto de onde escrevo, para que sejamos bons amigos, já que o progresso nos impede de sermos novamente amantes. Cid Augusto | comentários(7
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07/04/2007
17:41
NÃO SE PREOCUPE COM OS PAIS
Em carta à filha, o romancista e teatrólogo americano Scott Fitzgerald, autor de O Grande Gatsby, transcreve William Shakespeare, "Lírios apodrecidos têm cheiro pior do que o das ervas daninhas", para ilustrar um conselho, o de que é preciso ser responsável acima das alegrias e das tristezas, porque as pessoas são recompensadas pelas virtudes e castigadas em dobro por negligenciar as obrigações.
Mais à frente, ele escreve três listas, a das coisas que merecem atenção, a das que não merecem atenção e a das coisas para pensar. As coisas que merecem atenção resumem-se a coragem, higiene, eficiência e equitação. As coisas para pensar - se me permitem mexer na seqüência - convidam a refletir acerca dos objetivos da vida e sobre a capacidade de relacionamento com o semelhante.
A maior das listas, deixei por último, é a segunda, com dezesseis itens, entre os quais "não ligue para a opinião dos outros, não se preocupe com o passado, não se preocupe com o futuro, não se preocupe em triunfar, não ligue para os mosquitos, não se preocupe com as decepções, não se preocupe com os prazeres, não se preocupe com as satisfações e não se preocupe com os pais".
Desconheço o sentido real desta última frase, mas, pelo contexto, imagino que Fitzgerald, expoente da "geração perdida" de Ernest Hemingway e John dos Passos, quis dizer à filha dele o mesmo que eu e meus irmãos sempre ouvimos de nossos dedicados pais, inclusive agora, depois de alcançarmos a idade adulta, algo mais ou menos assim: "Sejam felizes que nós também o seremos".
Compreendo bem o que significa para um pai ou para uma mãe a felicidade dos filhos. Quando alcanço qualquer vitória na vida, por menor que ela seja, o brilho nos olhos dos meus pais é, sem dúvida, o mesmo brilho dos meus olhos diante dos triunfos e das alegrias dos meus filhos, o brilho do amor sem limites, do amor incondicional que se renova e se fortalece de geração em geração.
Cid Augusto | comentários(5
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31/03/2007
19:18
A "LEI SECA"
O Legislativo mossoroense transformou-se na versão institucional da velhinha do A Praça é Nossa. Seus integrantes perderam a condição de escutar a voz do povo e, mesmo quando captam ruídos de palavras amplificadas pela mídia, entendem as coisas de maneira distorcida. O resultado são respostas equivocadas que abalam nossas forças em plena festa dos 80 anos da resistência ao bando de Lampião.
A última ofensa à inteligência dos conterrâneos de Dorian Jorge Freire e Vingt-un Rosado, depois da chuva de requerimentos inócuos e da saraivada de ataques a veículos de comunicação na tentativa de abafar denúncias do Ministério Público, é um projeto de lei do vereador Osnildo Morais, o Sargento Osnildo (PSL). Imagine, o edil sugere fechar os bares à meia-noite para diminuir a violência na cidade.
Ocorrência lamentável, pior ainda por ser da autoria de um policial experiente, conhecedor das reais dificuldades de seus colegas militares na árdua tarefa de combater o crime. Osnildo sabe - do contrário deveria saber - não existirem relações entre os elevados índices locais de criminalidade e a raquítica vida noturna de Mossoró que, mesmo sem grandes coisas, garante o sustento de centenas de famílias.
Do ponto de vista político-partidário, o autor enfiou-se numa aeronave camicase com vocação a fogo amigo. Displicência da assessoria, claro, que se esqueceu de alertá-lo: o modelo semi-árido da "Lei Seca" coloca-o em rota de choque com a prefeita, algo inédito na Câmara da Obediência, onde o membro de oposição e o autoproclamado independente são mais servis que o mais roxo governista assumido.
A proposta é contrária ao desenvolvimento turístico e, se aprovada, ferirá de morte o calendário de eventos da prefeitura, cujos carros-chefes são Auto da Liberdade e Mossoró Cidade Junina, incluindo-se os shows secundários da Cidadela montada ao lado da São Vicente, palco do Chuva de Bala. Até as barracas da tradicional festa de Santa Luzia, garantia de renda extra à paróquia, seriam inviabilizadas.
Considerando-se o movimento sazonal, a perspectiva amplia-se ameaçando milhares de postos de trabalho, fixos e temporários. Mas nem todos classificam a coisa de ruim. Com a "Lei Seca", afirma certo garçom, "ninguém ouvirá sargento Osnildo 'cantando' Moranguinho do Nordeste depois da meia-noite". Calma, amigo, mestre Tom Jobim assegura que no peito dos desafinados também bate um coração.
Cid Augusto | comentários(10
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24/03/2007
21:16
DE BODE
Estou de bode. Caio Fernando Abreu, que era gênio, vez por outra acordava com um dragão. Eu, deselegante, tapado, sem sofisticarias, acordo de bode, chuto cadeira, reclamo do café, queixo-me da mulher e dos meninos, "Droga de barulho! Droga disso! Droga daquilo! Droga!". Nem metade do mês, liso de passar verniz, as contas ainda chegam. Volto a reclamar, e aviso logo: reclamarei no texto inteiro.
O computador está lento, o juízo apressado, "Que juízo, criatura?", ninguém pára de falar. Belo dia para escrever poemas, poemas de amor e ódio, filigranas de amoródio. É assim mesmo, adoro deformar palavras, porque as detesto, pelo menos agora, na era do bode. Se bem que, nesse caso, a fusão desconstrutiva se sustenta. Afinal, do amor há grandes chances de frutificar o ódio, o ódio legítimo e sincero.
O telefone toca, sinto que deve ser chatice das brabas. Do lado de lá, confirmando a teoria: "Aquele ex-amigo disse horrores de nós". Do lado de cá: "Ótimo!". Do lado de lá, espantado: "Não vai dizer nada?". Do lado de cá: "Nada!". Do lado de lá, insistindo: "Você o ajudou tanto!". Do lado de cá: "Sim!". Do lado de lá: "Você tem sangue de barata, doutor?". Do lado de cá: "Talvez?". Mistério, a linha cai.
Divórcio!, penso com a cabeça-do-mindinho-esquerdo-atacado-pela-artrite, preciso divorciar-me da mulher, do telefone, do jornal, divórcio amplo, geral e irrestrito, divórcio principalmente de mim mesmo. Devo seguir o conselho daquele sujeito chato, idiota, arrepiado, de olheiras magnéticas, pretas, da testa franzida, grave, que me aparece de repente, feito alma errante, o mago louco do espelho embaçado.
Tudo isso porque estou de bode, porque o mundo sofre de TPM - Tensão Pós-Moderna, porque amanheceu e meus olhos ardem, porque Antônio Maria inventou aquele troço de "Ninguém me ama, ninguém me quer,/ ninguém me chama de meu amor", porque, sei lá por quê! Quem me dera a companhia do dragão, mas São Jorge o emprestou a quem pediu primeiro. Ogunhê! Viva Deus e morra o diabo!
Cid Augusto | comentários(19
)
17/03/2007
14:10
A VINGANÇA DA HIENA
Li faz muitos anos, tantos que o título e os detalhes da fábula sumiram nos confins da memória. A parte central do enredo, no entanto, permanece clara o bastante para ser tomada como metáfora do comportamento de certos vereadores e assessores da Câmara Municipal de Mossoró em relação ao Ministério Público e a "setores da imprensa", como dizem os caríssimos edis e seus nada baratos asseclas.
A estória contida num livro furtado de minha humilde biblioteca narra a vingança da hiena cujo filhote fora devorado pelo tigre. Embora todas as testemunhas dissessem, e o próprio tigre assumisse a autoria do crime, a hiena, animal que segundo os índios transporta espíritos maus, resolveu ir à forra assassinando a zebra, justamente quem, de coração partido, deu a triste notícia à mãe da pequena vítima.
A senhora hiena - saliente-se para melhor compreensão - foi o grande culpado pelo ocorrido. Ela negligenciou os perigos da selva deixando a cria indefesa, à mercê de outros predadores, enquanto dividia com vermes os restos da carne podre do cadáver do búfalo abatido por leopardos. O tigre, respeitável senhor de bengala, aproveitando a oportunidade, deu andamento aos rituais da cadeia alimentar.
"A zebra é culpada. Quero vingança!", exclamava a hiena. "Não foi a zebra, foi o tigre, todo mundo viu. A coitadinha apenas deu a notícia", retrucavam interlocutores. Mas a hiena, sabendo-se incapaz de atingir o poderoso felino, repetia alto tentando convencer aos outros e a si: "A culpa é da zebra, a culpa é da zebra, a culpa é da zebra..." até que, convencida da própria mentira, esfolou o bicho inocente.
Relaciono a covardia promovida pela hiena ao comportamento vergonhoso de indivíduos da nossa Câmara de Vereadores que tentam ludibriar a opinião pública atribuindo a "setores da imprensa" críticas abertas que lhes são feitas pelo Ministério Público. Na visão da promotoria, e na minha também, o Poder Legislativo não vem cumprindo o papel de proteger os interesses do povo das garras das feras.
O MP questiona o fato de há anos as propostas orçamentárias do Executivo serem aprovadas no escuro, sem debates ou emendas, e suspeita desde ilegalidades contábeis ao crescimento da folha de pessoal da Câmara. Os "setores da imprensa" se limitam a noticiar esses fatos dando voz tanto aos promotores quanto aos investigados. E continuarão a fazê-lo, mesmo diante dos uivos ameaçadores da hiena.
Cid Augusto | comentários(7
)
10/03/2007
12:30
FOTOGRAFIA
A fotografia está reproduzida em papel fosco. Boa escolha, a matéria-prima valoriza o brilho dos olhos castanhos da antiga namorada. O vestido negro, decotado, cai bem na palidez do corpo jovem, aveludado, e contrasta com o verde-musgo do cenário. O rosto, meio de banda, meio sombra, meio luz, extravasa mistério e sedução. Nariz, boca, pescoço, colo, elementos harmônicos, traços de gênio.
Se eu não a conhecesse de longas eras, diria, pela foto, que as santas existem além das redomas, diria que uma deusa, insatisfeita com a vida monótona dos altares, descera à Terra e se fizera carne para abençoar os homens carentes, derramando sobre eles beleza, ternura, quiçá ungindo-os com aqueles beijos celestes que às vezes imagino haver encontrado, mas que ainda espero no rastro das estrelas.
Felizmente conheço os artifícios da besta e, no caso dela, a fotografia não me leva a um falso juízo. Está linda, com certeza. Afirmo, porém, que o feio habita o avesso do retrato, o lado que ninguém enxerga e que as técnicas do ofício escondem. É uma safada, essa doce menina, e se fosse apenas safada, maravilha! Muitos homens adoram mulheres safadas. Ocorre que a moça é o poço das ilusões.
Por isso, digo aos amigos que desconfiem das fotografias, pois elas escondem ou ampliam certas características conforme lhes convêm e aos seus criadores e criaturas, são umas mentirosas. É o ângulo, sempre o ângulo que valoriza ou avacalha a imagem. Desculpem-me pela generalização, nem todas são ruins, acontece que já fui seduzido por fotos levianas, tanto em cores quanto em preto-e-branco.
Tenho motivos mil para agir dessa maneira, duvidando dos retratos e da beleza das bruxas. Sou das vítimas e, conhecendo determinados segredos do mundo das imagens, tento desmitificar fantasmas que nascem das lentes e dos flashes. Diziam os índios - quando índio era índio - que as câmeras roubam o espírito do homem. Não, elas não roubam coisa nenhuma, mas também não reproduzem a realidade.
Se revelassem a aura, se tivessem a decência, a coragem de mostrar o que se esconde atrás dos rostos e dos corpos, atrás das aparências, atrás das paisagens, se trouxessem à tona o conteúdo de cada elemento, as fotos prestariam grandes serviços à humanidade, desmascarando certas figurinhas simpáticas que freqüentam os jornais, as revistas ou simplesmente este pedaço de papel fosco do meu arquivo.
Cid Augusto | comentários(4
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03/03/2007
14:15
PARA NATACHA
Pretendia escrever sobre a moça de azul, aquela de azul na roupa, de azul nos olhos, de azul na cuca. O problema é que toda moça de azul tem namorado roxo, de ciúme, detalhe lastimável, mas convincente o bastante para mudar o rumo da prosa. Natacha, pelo menos, não deve me causar problemas, digo "não deve" porque, sinceramente, não a conheço, nem sei se ela existe e, se existe, se é nova, velha, alta, magra, feia, bonita.
Talvez esteja na casa dos "inta", daí para frente, porque a indicação "P/ Natacha" escrita em grafite, com uma letra alta, magra, quase gótica, encontra-se abaixo de "Ao Leitor", título do primeiro poema de As Flores do Mal, obra-prima de Baudelaire, e a edição a que me refiro é de 1985. Comprei-a faz seis anos, no Sebo Vermelho, por quinze reais ou "Quinze contos", como diz Abimael Silva, proprietário do estabelecimento.
Para os que apreciam a análise do comportamento humano, construindo imagens acerca das pessoas, a partir de sinais aparentemente sem importância, os livros usados têm significado especial, porque neles estão as marcas, conscientes e inconscientes, feitas pelos antigos leitores. São grifos, anotações, rabiscos, dobraduras e até aquele aspecto amarelado que certas páginas adquirem, por serem mais freqüentadas do que outras.
Assim encontrei Natacha. Além da dedicatória a ela, há uma assinatura ilegível, que se repete na folha de autógrafo e no sumário, o desenho de um bichinho esquisito, na página 449, e o destaque ao nome de Creso, rei da Lídia, cuja riqueza inspirou a frase "Tão rico quanto Creso". O último proprietário também destaca os poemas "Epígrafe para um livro condenado", na página 457, e "A Eugène Fromentin", na página 565.
Não consigo definir o que se pretendia no tocante a Natacha, compará-la com a mensagem ou apenas avisá-la de que o pecado vicia, de que "... adoráveis remorsos sempre nos saciam", de que "Impomos alto preço à infâmia confessada", e de que "É o diabo que nos move e até nos manuseia!/ Em tudo o que repugna uma jóia encontramos;/ Dia após dia, para o Inferno caminhamos,/ Sem medo algum, dentro da treva que nauseia".
Há quem não se sinta provocado por coisas dessa natureza, mas eu, Escóssia da gema, trago a inquietação e a curiosidade destacadas na herança genética. Quem será Natacha? Ainda vive? Mora onde? Faz o quê? É flor do bem ou do mal? Veste-se de azul ou prefere verde, vermelho? Se alguém souber do paradeiro dela, da Natacha cuja memória habita o meu exemplar do livro de Baudelaire, por favor, avise-me com urgência.
Cid Augusto | comentários(3
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24/02/2007
15:46
ALUCINAÇÃO
Sonhei com a cachorra da moléstia e arranquei lágrimas do tempo entre sorrisos revirados nas entranhas e palavras fragmentadas nos cacos da felicidade partida a golpes de distância. Segui aperreado nos corredores do labirinto do tal sonho com ares de pesadelo. Meus gritos de pavor morriam em preto-e-branco no eco de paredes mudas enquanto o hálito da besta disforme arrepiava-me os instintos.
Corria, corria, mas nada avançava. Quanto mais corria mais cansava, menos fugia. Busquei no horizonte o coração do dia e encontrei no fundo do olho esquerdo a bicicleta azul acorrentada ao tronco da acácia morta. Não dava fuga. Tentei o olho direito onde estava a taça de fogo. Bebi três lapadas de claridade por engano. Quis novamente correr, desconcentrei-me, caí enjoado sobre o colo da terra.
Caído sobre a terra, ofegante, gritei o versículo xis do capítulo ipsilon do evangelho apócrifo dos boêmios: "A noite é minha pastora e nada me faltará!". Ah, se fosse noite! A noite me conduziria invisível na melodia de seus versos rimados de estrelas, protegido da fera dos seiscentos diabos ressurgida dos confins do subconsciente, lá onde as coisas maléficas devem permanecer todo o sempre.
Infelizmente alguma coisa toca em clave de sol fora de mim. Daí, a luz externa, o corpo visível, vulnerável e impelido à lembrança, mesmo diante da resistência do espírito que se recusa a visitar novamente aquele corpo. Resistir a tudo, menos às tentações, conforme ensina o velho Oscar Wilde, é o que pode ocorrer àqueles que se sentem dominados além dos sentidos, sem controle sequer das pernas.
Quem fez dormir o pobre menino em pleno reino da manhã, quando almas sebosas e libertinas fogem do limbo para se aproveitar dos inocentes herdeiros da madrugada? Quem evocou o súcubo, a besta de olhos castanhos conduzida ao mesmo cruzamento de caminhos imaginários da criança? Maldito seja! Maldito seja! Maldito seja o inventor dessa agonia, desse suor, desse medo, dessa queda.
Ainda bem que meu amor, percebendo os espasmos, o risco, perfumou-se de absurdo, fechou as vistas e apareceu na mesma alucinação a tempo de evitar o ataque da quimera à carne enfraquecida pela incandescência dos flashs. Sem dizer palavra, adiantou-se flutuando nos corredores do inferno, arrebatou-me nos braços, alisou-me os cabelos, beijou-me a boca e, graças a ela, acordei em segurança.
Cid Augusto | comentários(6
)
18/02/2007
13:59
NÓS MORREMOS
"Nascemos de um só modo,
de muitos morremos".
SÊNECA
Morremos. Não sei exatamente quando nem como tudo aconteceu. Tenho certeza apenas de que perecemos consumidos a partir dos ossos por um mal secreto e traiçoeiro. Houve sinais, mas não nos importamos com os alertas dados aos nossos corpos e almas. Calamo-nos e no silêncio onde as defesas humanas se enfraquecem, longe de médicos e curandeiros, a moléstia passou à fase terminal e a terceira parca, Átropos, irmã de Cloto e Láquesis, cortou o fio de nossas vidas.
Estou no inferno e aqui, diferentemente do que dizem, faz um frio dos diabos, aquele frio úmido que ataca as articulações, favorecendo a manifestação da poliartrite congênita. No entanto, a dor nos punhos, nos cotovelos e nos joelhos nem se compara ao estardalhaço do tinhoso em meu juízo. O juízo dói e pesa muito mais do que juntas e tendões apodrecidos. É como diz aquela alma atormentada em Dante: "Não há mágoa mais atroz do que na desgraça recordar as alegrias".
Felizmente há livros, milhares deles, coletâneas e coletâneas de conhecimento proibido amontoadas desde o pecado original em prateleiras pálidas e sujas. Os tratados sobre ética encabeçam a lista dos best-sellers. A música é legal. No instante, criaturas do pecado e do fogo escutam "O ciúme", de Caetano na voz de Caetano: "...Tanta gente canta, tanta gente cala,/ tantas almas esticadas no curtume./ Sobre toda estrada, sobre toda sala,/ paira, monstruosa, a sombra do ciúme".
Desconheço o paradeiro da outra parte. Disseram-me criaturas do Limbo que a alma-gêmea dos anos terrenos habita o Paraíso onde moram santos, anjos, arcanjos, querubins e outras invenções celestes. Se estiver realmente por lá, que passe bem. O amor deve a ela a compensação da felicidade eterna. Da última vez em que nos vimos, encontrávamos no leito de morte, cada qual do seu lado consumindo-se na falsidade dos diagnósticos, sem força para as palavras de salvação.
Palavras são navalhas se as forjarmos com o aço da desconfiança na fornalha da mentira. Navalhas cortam dilacerando a carne. E matam. Nós morremos, mesmo sabendo que antídoto para navalha é palavra. Devíamos tê-lo ingerido nos primeiros sinais, mas negligenciamos as disposições orgânicas. A ex-amada ganhou paz eterna, amém! Eu prossigo no Vale das Sombras, partindo corações na madrugada, embriagando-me do chumbo vulgar que servem nas filiais do inferno.
Cid Augusto | comentários(6
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10/02/2007
15:17
PALAVRAS NOS BEIJOS DA FADA VERDE
Os beijos da fada verde trouxeram velhas palavras, montes delas, meio confusas e com os olhos no limiar do abismo, e que profundo, mas em razoáveis condições de uso. Acordar um Neruda, caminho para ordenação de significâncias, mesmo quando se raciocina em estado de êxtase. "Ai daqueles que não compre-enderam senão o silêncio, quando a poesia é palavra, e daqueles que só compreenderam a sombra, quando a poesia é luz de cada dia e cada noite dos homens!", adverte o poeta, encorajando quem pretende transgredir a ditadura do senso comum, protestar contra a escuridão e construir enunciados além da meia-noite, sob o signo do desejo e a ascendência da loucura.
Absintar-se às vias do alucinamento, no estilo Belle Époque, e ser independência, convencido de que palavra nasce para ser usada e abusada. Não deve ser emudecida, mesmo maldita, mesmo canalha, mesmo dolorosamente verdadeira, com ares insanos, amargosa feito estrato de artemísia, quando se reveste de propósitos, quando quem a empunha é viciado em liberdade. Caçador de bruxa queima gente, queima livro, sem saber que o pensamento sobrevive ao fogo e viaja nas cinzas com o vento. O pensamento é a alma das palavras, embora umas pobres coitadas sejam ocas de espírito. Só o verbo espontâneo e sem limites pode se contrapor ao verbo espontâneo e sem limites.
E o que fazer agora, se a sorte foi lançada? Há rios de matéria, há prumo e um certo rumo, há também cometimento, certeza de que o verbo é começo, meio e fim, de que o homem é linguagem, território da ideologia, ponto sempre conflituoso, espaço em que o silenciamento representa dominação, ainda mais quando sujeitos não resistem e se deixam arrastar pela espiral afinada dos contentes. Quem vence a constante luta das trevas contra a luz? As trevas? A luz? Não importa, palavra consegue ser palavra, faça chuva ou faça Sol, gaiolas não bastam para detê-la. Veja o caso dos pássaros, que cantando rompem as grades da clausura, transportando-se para onde desejam os seus sonhos.
Verlaine-nos, maldito entre os malditos, pelos lábios líquidos da fada verde, para que os pregadores do medo associados aos escravos da ignorância não reacendam a escuridão das fogueiras do ódio, do terror, e não realizem o enterro da embriaguez da arte. E se isso ocorrer, se refizerem o escuro, não percamos a fé, cantemos como insistiu em cantar Thiago de Mello, porque palavra, inclusive em estado de sombra, ilumina estradas e todo caminho leva a esta vontade de gritar. Nerude-nos, Senhor, para que a poesia "preserve em sua taça a velha primavera assassinada" e que assassinos e comparsas tenham vida longa a fim de que testemunhem a permanente ressurreição da liberdade.
Cid Augusto | comentários(6
)
05/02/2007
10:51
QUANDO SOPRA O VENTO LESTE
Poucos percebem este movimento. Apenas os pescadores mais apaixonados pelo ofício das marés notam que os barcos ancorados em Tibau dão as costas para o continente, quando sopra o vento leste, e ficam contemplando a imensidão do oceano.
As velas recolhidas, dobradas para trás, parecem os cabelos brancos de quem muitos mares navegou, mas que não se cansa de sonhar com o momento de novamente seguir no rumo do infinito em busca de aventuras, além da conquista do peixe de cada dia.
Se o mar está calmo, os barcos apenas flutuam com movimentos leves, lembrando os feitos daqueles que os conduziram por lugares diversos, recordando a emoção do regresso no tempo em que a tez vermelha dos morros podia ser observada de longe.
Se o mar está agitado, eles também se excitam, debatem-se na água, desafiam as ondas desejando livrar-se da âncora para navegar sozinhos suas aventuras ao sabor do vento e das correntes marinhas, sem lemes, sem mestres, sem direção.
Os barcos possuem sentimento e, melhor até do que muitos velhos lobos-do-mar, conseguem traduzir o humor inconstante das marés, as fases da Lua, os desejos da ventania. Porém, como eu já disse, é preciso paixão para mergulhar nessa jornada.
Cid Augusto | comentários(4
)
27/01/2007
15:05
DONA CHICA
Minha avó Francisca estava paralítica há cinco ou seis anos, desde quando um bandido a atacou para lhe arrancar uma correntinha do pescoço. Voltou a andar por nossas pernas que transportaram seu corpo da capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro - a famosa igrejinha dos defuntos - ao túmulo no qual já repousavam os restos mortais do marido, Lahyre, e do filho mais novo, Lairson, no cemitério de São Sebastião.
Os parentes fizeram questão de ir a pé ao campo santo, apesar do sol estorricante das tardes de janeiro, repetindo passos recentes por ruas domingueiramente vazias, silenciosas, arrastando na alma dolorida o estandarte pálido da saudade. Era preciso concluir a trajetória do adeus iniciada há 27 dias na UTI do hospital, onde a falência do ser humano se prenuncia em valores matemáticos nas linhas verdes do monitor cardíaco.
O cortejo fúnebre tradicional adia quase nada a despedida. O objetivo do gesto, no entanto, não é postergar o inevitável retorno da matéria ao pó. A caminhada é reverência a quem se foi, e Francisca Gurgel Frota Rosado merece todas as homenagens. Mulher valente, decidida, de sinceridade às vezes cortante, construiu em 83 anos bem-vividos História com AGÁ maiúsculo que será perpetuada na memória da família.
Disse-o muito bem tia Sarah - freira irmã de minha avó - na mensagem lida e comentada por papai na finalização da missa de 7º dia: "Francisca, recordando sua coragem, a sua vida que foi sempre uma festa, sua maneira de amar e desejar ser amada, o seu desprendimento com relação aos bens materiais, seus familiares, cheios de saudade, dizem: 'Você não partiu, pois quem está perto de Deus não está longe dos seus'".
Nós, os netos, brincávamos chamando-a por três apelidos dos quais nem sei se ela gostava: Dona Chica, alcunha natural de Francisca; Chica Bandeira, comparando-a em brabeza àquela delegada da série O Bem-Amado; e Chica Fura-Mundo, porque adorava viajar e bateu perna o quanto a saúde permitiu, mas, ironicamente, queixava-se de não conhecer a terra natal, Pau dos Ferros, por haver saído de lá ainda recém-nascida.
Era forte. Muito forte. Trabalhou duro na máquina de costura Singer para ajudar o velho Lahyre no sustento e na educação dos quatro filhos. Sobreviveu à morte de um deles, o caçula, uma das melhores pessoas que conheci. Sofreu dores cruciantes nos últimos tempos em conseqüência do punho e da bacia quebrados pelo assaltante. Mesmo assim, render-se estava fora de cogitação. Queria viver. E resistiu o quanto pôde.
Cid Augusto | comentários(16
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22/01/2007
11:25
A TRISTEZA DO MAR
Uma velha e querida amiga da família disse-me que não gosta do mar, porque ele é muito triste e, no seu eterno vaivém, só transmite melancolia.
Lembrei-me do saudoso poeta Dagmar Costa, pai do grande Genildo Costa, recitando um poema, se não me falha a memória, escrito por Rogaciano Leite.
No texto ao qual me refiro, Rogaciano afirma que, depois de contar ao mar suas mágoas de amor, percebeu que o mar também chorava, que o mar também sofria.
Talvez eu seja um sujeito insensível e, apesar de ter o costume de ouvir o mar, olhando-o fundo nos olhos, nunca percebi essa suposta amargura.
Para falar a verdade, da mesma forma nunca enxerguei qualquer alegria. As ondas só transmitem duas coisas aos meus sentidos: tranqüilidade e agitação.
Detalhe: segundo dizem pescadores, marinheiros e outros especialistas no assunto, quem determina a serenidade ou a inquietação das marés é a Lua.
Não duvido, no entanto, que o mar seja alegre, triste, poeta, que o mar sinta dores e prazeres. Afinal, ele é o que existe de mais parecido com o homem.
E com certeza, amigo leitor, quem conseguir entender os mistérios e sentimentos marinhos, compreenderá perfeitamente os enigmas da alma humana.
Cid Augusto | comentários(9
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30/12/2006
16:08
BIG APPLE
Procurei dicas sobre Nova Iorque na Internet para chegar melhor informado à terra de meus amigos Charles Phelan e Julian Silberstang, este que gentilmente nos hospeda no apartamento do irmão dele, Avery Cardoza, proprietário e editor-chefe da revista Player, que foi passar o Ano-Novo na Índia com a filha Sara.
Encontrei sites ótimos contendo informações valiosas mesmo para quem está bem siceroneado na Big Apple (grande maçã), como chamam, sem saber por qual motivo, a cidade do Empire State, da Estátua da Liberdade e do "buraco" das Torres Gêmeas, atração turística criada com sangue e medo por terroristas da Al Qaeda.
Falando em terrorismo, jantávamos numa pizzaria do Soho quando suspenderam a transmissão do futebol para a notícia do enforcamento de Saddam Hussein. A reportagem da CNN informava sobre a execução às 6 horas de sábado em Bagdá, 1 hora em Brasília e 22 horas de sexta-feira na Costa Leste dos Estados Unidos.
Dizia ainda que a sentença da Justiça iraquiana fora cumprida em três minutos registrados pela TV estatal Al-Iraqiya (parte do vídeo pode ser visto no www.cnn.com) e ressaltava a nomenclatura medieval de "morte suja" pelo fato de as vítimas de enforcamento quase sempre liberarem fezes, urina e até sêmen enquanto agonizam.
Incrível! O inimigo da nação georgebushiana acabara de ser depachado para o inferno "pelo assassinato de 148 xiitas" ocorrido em 1982 e os freqüentadores do restaurante nem aí. Aliás, ninguém naquele ambiente americano prestava atenção ao noticiário acerca de episódio que pode gerar reações violentas.
E se essa galera teoricamente mais interessada nas coisas do Iraque não se incomoda, voltemos ao site no qual está escrito "... ria de felicidade, porque tudo em Nova York é muito bom". O redator acertou na asa da mosca, esqueceu-se dos preços, das filas e do arremedo de café servido nas "melhores" casas do ramo no país.
Comida, bebida, passagem de ônibus, água, o que se cobra por qualquer troço na Cidade que Nunca Dorme é de tirar o sono. Há fila até para entrar na fila e em certos pontos a espera na pré-fila chega a duas horas. O cafezinho - pela caridade! - é a perfeita tradução do termo "chafé", o chá de café do qual Gilberto Gil afirma gostar.
Na metrópoli, o frio não é tão intenso, mas as pessoas são menos calorosas do que na Costa do Pacífico. Nem se comparam aos habitantes de Seattle, Wenatchee, Leavenworth e Chelan. Vale, no entanto, traduzir a frase do taxista da Guiana Britânica que nos levou à Quinta Avenida: "Aqui ninguém é americano".
Inglês é o idioma que menos se escuta nas ruas, nas esquinas, nos estabelecimentos comerciais. Árabe, português, espanhol, francês, italiano, chinês, japonês, dialetos exóticos, parece Babel. Segundo dados da Wikipédia, 35,9% da população nova-iorquina, cerca de18,7 na área metropolitana, nasceram fora dos EUA.
No quesito beleza, a Big Apple é nota mil. E saiba que chegamos faz pouco e conhecemos o básico do básico, do Central Park a Little Italy. Ainda há muito chão e muita gente no caminho. Talvez venhamos a concordar com a pesquisa da revista Reader's Digest que aponta Nova Iorque como a cidade mais cortês do mundo. Tomara. Cid Augusto | comentários(9
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23/12/2006
18:05
THE WENATCHEE WORLD
O expresso estava ótimo, forte, cheiroso, parecia coisa de brasileiro, talvez pelo fato de a dona do Caffe Mela haver morado em São Paulo e adquirido know-how verde-amarelo. Sabedor desse detalhe, Rufus Woods, diretor e editor do The Wenatchee Worlds, levou-nos até lá para o almoço depois de nos mostrar o jornal, departamento a departamento, da redação às oficinas.
Fez jus à hospitalidade da costa Oeste, crescente a partir de Seattle, simbolizada na crônica anterior nas figuras de Karl e Karen Ohler, que receberam a mim e a Samara na estação com sorriso generoso, do tamanho do trem, e que nos acolhem em seu lar, onde nos agasalhamos enquanto a neve cobre montanhas, ruas, plantas e calçadas sem diminuir em nada o calor humano.
Na residência dos Ohler, número 1217 da rua Ormiston, há lembranças concretas em paredes de madeira, pássaros voando na sala, poesia no jardim. Há muita gente boa, a exemplo de Terry, nossa primeira visita; da filha Tiffany, do genro Ryan e da neta Macy a quem chamo "velha Macy", imitando referência carinhosa do poeta Genildo Costa a meu filho caçula, o "velho Cidinho".
Percebendo minha paixão pelo ofício da notícia, mommy Ohler telefonou para a amiga Cheri Raybum, chefe do departamento pessoal do The Wenatchee World, agendando a visita. "Newspaperman from Brazil", jornalista do Brasil, é coisa rara por aqui e despertou curiosidade. Mister Woods marcou o encontro para a segunda-feira, no horário de pleno funcionamento.
Até o dia e a hora marcados, depois disso também, os Ohler nos levaram a vários lugares. Vimos maravilhas com estes olhos que a terra há de comer daqui a 300 anos. Rios, chapadas, pinheiros, a bela ornamentação de Natal e o vale branco no inverno - dizem-no deserto no verão. Mission Ridge, a estação de esqui, merece comentário à parte, bem como as cidades de Leavenworth e Chelan.
Visitamos campos de golf, jogamos boliche, provamos do vinho das três galegas na vinícula Icicle Ridge, em Peshastin, caçamos falcões nos arredores da usina energética Rock Island Dam, mas apenas com fins fotográficos, e consumimos iguarias mexicanas. Os mexicanos, quase sempre moradores da periferia e contratados para serviços "secundários", mandam na culinária.
O domingo partiu prematuramente. 19 horas, cama, sono profundo. Antes, porém, fomos a uma pequena propriedade no município de Rock Island conhecer os pais de Karls, o casal de imigrantes Michael e Victoria Ohler, ele de 85 e ela de 80, que deixou a Iugoslávia em 1959 fugindo da ditadura e foi trabalhar na agricultura americana, atividade a qual ainda se dedicam.
Manhã seguinte, horário marcado, Cheri Raybum nos levou à sala de Woods para conhecermos História semelhante à do O Mossoroense de João, Lauro, Augusto da Escóssia e descendentes, a exemplo deste cronista de meia pataca, que ajudaram e ajudam a manter viva a chama acesa em 1872 por Jeremias da Rocha Nogueira, José Damião e Ricardo Vieira do Couto.
The Wenatchee World é empresa familiar centenária. Foi fundada aos 3 de julho de 1905 por C. A Briggs e Nat Ament com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento da região seguindo princípios do Partido Republicano. Os Woods entraram no negócio dois anos depois, quando Rufus, avô do atual publisher, adquiriu e salvou a empresa da crise financeira.
O jornal dos Woods, que ainda conta com a presença diária de Wilfred, filho do primeiro Rufus e dono da maior biblioteca particular do condado, circula à noite com a invejável tiragem de 21 mil exemplares, pouco menos - talvez mais - que a soma de todos os diários do Rio Grande do Norte, graças ao desempenho da impressora rotativa que realiza sua missão num piscar de olhos.
Em dado momento de nosso encontro, já no Caffe Mela, Rufus armou-se de papel e caneta. Perguntou muito. Respondi o que pude com um inglesinho capenga. O homem franzia a testa de tanta concentração para compreender. Conseguiu. Na edição seguinte, publicou artigo na segunda página sob o título "Newspapers face similar challenges, whether in Brazil or here".
Correto. Do jeito que me insultaram por "desafinar o coro dos contentes", aproveitando deixa de Torquato Neto, ao me referir ao arremedo de decoração natalina de Mossoró, autoridades ficaram "magoadas" com Woods por palavras dele acerca das novas placas de boas-vindas a Wenatchee. Informar e criticar são realmente desafios em qualquer parte do mundo. Fazer o quê?
Cid Augusto | comentários(7
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16/12/2006
16:55
NOTÍCIAS DO MUNDO DE CÁ
São 17 horas na região oeste dos Estados Unidos, 22 na brasileira, e acabamos de sair no trem 8909 da Amtrak, de Seattle rumo a Wenatchee, cidade onde Samara morou em 1991 e 1992. Mal paramos na estação, pois o ônibus que nos trouxe de Vancouver, Canadá, chegou quarenta minutos antes do reembarque, o suficiente apenas para almoçarmos salada no restaurante japonês da esquina.
Estamos na América do Norte desde os 5 de dezembro e já percorremos muito céu, chão e mar, sem dizer do corre-corre no Rio Grande do Norte e em São Paulo. Fomos vítimas da onda de atrasos nos vôos domésticos, cerca de 90 minutos no Augusto Severo, em Parnamirim. Felizmente, o espaço para conexão em São Paulo era longo. O vôo Delta partiu para Nova York à meia-noite e vinte, horário de verão.
Na tela da aeronave, a pespectiva de se percorrer 7.645 km em 8h04 e, no tempo previsto, pousávamos no JFK, aeroporto sem vida, de corredores estreitos, passagens lúgubres e banheiros sujos, pelo menos na área pela qual entramos. O agente na imigração foi cordial, embora usasse luvas de borracha para não ser contaminado por vírus infiltrados em passaportes terceiromundistas.
Após a entrevista, a parte incômoda, mas compreensível diante dos problemas internacionais enfrentados por eles. Exigiram que tirássemos as jaquetas e os sapatos para passarmos num aparelho de raio-X. Como não havia nada ilícito em nossos corpos, apesar de minha bunda batida, meu calcanhar remendado e o dedinho torto de Samara, fomos autorizados a entrar e a permanecer por seis meses no país.
Retroagindo na narrativa, Nova York vista de cima, antes de o Sol surgir, parece um oceano de luz cujo fim não se enxerga. As avenidas frenéticas parecem gigantescas serpentes luminosas. No céu, embora o relógio de pulso decretasse o amanhecer, a Lua desfilava soberana. A mesma Lua que inspira poetas do Delícia da Praça, Beco da Lama, Oropa, França e Bahia, eternos passageiros das naus trazidas dos confins do mundo por Ascenso Ferreira.
Seguimos caminho. Terceiro avião para completarmos 29 horas de viagem e mudarmos a quarta vez de fuso horário. A aeronave aterrissou em Seattle às 11h53, 14h53 em NY, 17h53 em SP e 16h53 no RN. Hospedamo-nos num motel de estrada, desses de filme, tomamos banhos e saímos no coletivo 174 para explorar a cidade. Andamos quilômetros até nos rendermos e encerrarmos com duas doses de uísque, cada, num pub grunge.
Dia seguinte, ainda desorientados, acordamos de madrugada e fizemos carreira para Downtown. Caminhamos pelo Pike Place Market, beiramos a Elliot Bay até o Space Needle, torre de 520 pés de onde se vê os quatro cantos da famosa Cidade das Esmeraldas. A subida no elevador panorâmico dura apenas 42 segundos. Fomos de ônibus a Chinatown e retornamos a pé ao Centro.
Registre-se que o povo de Seattle, lugar de aproximadamente 580 mil habitantes, é simpático e prestativo. As pessoas nos cumprimentam, ajudam, informam, algo muito diferente do esteriótipo bushiano - arrogante e individualista - que nos é passado de forma gerenalizada pela mídia. Param até o que estão fazendo para auxiliar turistas perdidos. Aconteceu conosco.
Aos sete de dezembro, após persistirmos a manhã inteira, entrando e saindo de fila, apresentando documentos e explicações, conseguimos visto para conhecer o Canadá. Pegamos os panos-de-bunda e fizemos carreira.
Bem tarde, dávamos entrada num albergue próximo à rodoviária de Vancouver. Ao amanhecer, tomamos aquele "delicioso" café no McDonalds e seguimos para o Science Center, onde vimos uma exposição de cadáveres artisticamente preparados para estudos anatômicos, que faz o maior sucesso por estas bandas. Nada mórbido nem apelativo, por incrível que pareça.
Pegamos um barco nas imediações do Science Center. Destino: Granville, mercado enorme com frutas e verduras incríveis. Provamos um troço sem gosto chamado dragon fruit. Estivemos ainda no aquário. Lindo. Fiz fotos maravilhosas. Perdi todas mexendo sem necessidade na máquina fotográfica. 163, o número do prejuízo. Ainda tentamos conhecer a ponte Capillano, na montanha. A chuva forte nos fez desistir da aventura.
Aos 10 de dezembro, rumamos a Victoria, capital da Colúmbia Britânica. Atravessamos um braço de Pacífico num ferry-boat de sete andares. A cidade já estava preparada para o Natal e as luzes davam tons especiais à arquitetura imponente. Lá, a presença chinesa também é incrível. O calor humano idem. Voltaríamos a Seattle de navio, não fosse a tempestade no oceano. Por isso, precisamos refazer o percurso de ônibus a Vancouver e depois a Seattle.
Trecho longo, coisa de seis horas, sem contar o aborrecimento no posto da imigração, na fronteira Canadá/Estados Unidos. A agente, ao contrário dos colegas dela que nos entrevistaram em outras ocasiões, foi rude e irônica. Ninguém, no entanto, engasgar-se-ia com mosquito em meio a tanta coisa boa. Além disso, chegamos a Wenatchee e os pais americanos de Samara, Karl e Karen Ohler, nos esperam na estação com sorriso do tamanho do trem.
Cid Augusto | comentários(17
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02/12/2006
17:45
PIROCAS VERDES - O RETORNO
Nem os ufólogos Legalgênio e Sotopá no Búzio, líderes do Comitê Interga-láctico Mossoroense, esperavam tama-nha surpresa. As criaturas do planeta Phallus Erectus que ano passado invadiram Mossoró City, assustando os conservadores, mas fazendo a festa da rapaziada alegre, estão de volta e podem ser vistas se balançando nos postes da Presidente Dutra, disfarçadas de decoração natalina.
As pirocas verdes dobraram de tamanho nos últimos 12 meses e, ainda por cima, penetraram a avenida arrastando gigantescas gônolas, com as bênçãos do Palaço da Rinzistença. A exemplo do primeiro contato imediato, beatas desmaiam nas igrejas e tímidos se refugiam no litoral enquanto simpatizantes receptivos espalham faixas com a mensagem "Bem-vindos outra vez, extragegegegês!".
A cafetina Maria Cova Funda, aquela experimentada senhora do Alto do Louvor, mantém-se firme no propósito de acolher os ETs, mesmo ciente das mudanças anatômicas. "Podem vir de cinco em cinco. Eu derrubo!", desafia. Seu Zé das Facas, o sujeito da maior lâmina do Papoco, declara-se indignado: "Recolhi-me à insignificância, minha peixeira enfrenta um complexo de bisturi".
Nas redações, o dilema shakespeariano devora o juízo dos jornalistas: dar ou levar o furo (de reportagem), afinal se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Gilson Cardoso não quer se expor temendo choques elétricos, George Wagner desapareceu voando em suas muletas supersônicas e Oberdan Silva prefere ser demitido a parodiar de novo a Guerra dos Mundos, de Orson Welles.
O repórter Bruno Barreto, que em 2005 entrevistou o líder alienígena por influência do editor Márcio Costa, propôs à chefe atual, Ana Cadengue Rattinho, a análise política do troço, enfocando desde a cidadania proposta na Câmara para os extra-terrestres, passando pela tentativa de transformação da Dutra em Phallus, até as mudanças no orçamento da prefeitura a fim de bancar a farra verde.
A brava Mayara Amorim, da editoria de polícia, investiga denúncia segundo a qual os elementos não voltaram porque na verdade nunca saíram da zona. Fontes da PM, PF, PC, ABIM, FBI, CIA, KGB e Scotland Yard garantem: as ditas-cujas ficaram escondidas nos fundos da Culture Foundation, tratadas à base de leite de burra preta e de massagens holísticas para se tornarem super, mega, ultragês.
Sendo de falo o fato ou de fato o falo, o poder público deve explicações à sociedade. A massa ignara quer e tem o direito de saber quanto o erário anda gastando na atração e na manutenção dos phalluerectuanos, bem como nas mordomias a eles oferecidas. Ninguém é contra o diálogo, todos reconhecem a importância das transações interplanetárias no desenvolvimento cultural dos matutos do semi-árido.
Não desconfiemos, no entanto, da capacidade dialógica de nossa representante maior, não criemos caso. Amanhã ou depois, a burgomestra dos monxorós colocará a história em pratos limpos e será aplaudida de pé por dileta claque quando afirmar que a guerra contra a inclusão - social - das pirocas verdes, representantes das potências geradoras, é ação nefasta dos oposicionistas contra o governo dos avanços.
Cid Augusto | comentários(17
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